CHAMADA DOSSIÊ - REGIMES DA ESCUTA AUDIOVISUAL

2026-06-08

DOSSIÊ - REGIMES DA ESCUTA AUDIOVISUAL

Organizadores: Rodrigo Carreiro (UFPE), Débora Opolski (IFPR e Unespar) e Renan Chaves (Unicamp)

A consolidação do formato sonoro-visual do cinema encontra seu centenário na nossa atual década, os anos 2020. Entre o começo do século passado e os dias de hoje, o cinema — e a forma fílmica — penetrou meandros profundos da sociedade em múltiplos territórios: nos projetos de construção de identidade nacional, na disseminação de imaginários, nas vanguardas artísticas, no testemunho da história, na fabulação de novos mundos. Ele se fez presente na poesia do cotidiano, no lazer, no entretenimento, no ativismo político, na vocalização dos marginalizados, nas investigações sobre a subjetividade, na construção da indústria cultural. É com esse vasto repertório histórico, sensório e estético que a tradição cinematográfica desembarca em nossa contemporaneidade.

         O historiador Thomas Elsaesser aponta para essa penetração polivalente do cinema na sociedade propondo que o pensemos como um dispositivo arqueológico das mídias digitais e audiovisuais. O cinema e a forma fílmica como disparadores de modos de fruição e criação. Sob essa perspectiva, o cinema passa a ser compreendido como uma máquina do audível e do visível, um artefato tecnológico fundamental na instauração e modulação de regimes de escuta e visão, marcando o cinema como a história da nossa atualidade virtual e de nossos modos de ver e ouvir.

         O cinema instaura no século XX uma maneira particular de percepção sonora e musical: aquela em que o sonoro se torna indissociável materialmente, simbolicamente e esteticamente da visualidade. A percepção sonora, nesse raciocínio, seria uma percepção sonoro-visual; tal como a percepção visual seria uma percepção sonoro-visual. Michel Chion bem definiu esse regime sensório com sua noção de audiovisão. A música e o som deixam de operar como categorias autônomas para adquirirem o estatuto de materialidade fílmica, inextricáveis da visualidade: a música do filme não seria apenas música, seria música fílmica; o som do filme não seria apenas som, seria som fílmico.

         Neste dossiê temático, interessa-nos explorar, em especial, os regimes de escuta audiovisual: as dimensões históricas, culturais, sociais, econômicas, estéticas, éticas e tecnológicas que posicionam e reposicionam a especificidade da escuta fílmica, seja no cinema ou nas mídias digitais. São bem-vindos manuscritos nos seguintes eixos temáticos (e em eixos correlatos).

1. Regimes contemporâneos de escuta audiovisual

Abordagens sobre como escutamos sons no cinema e nas mídias digitais, incluindo atualizações das noções de audiovisão, transdução sensória e imbricação sensório-material.

 2. Histórias e genealogias do som fílmico

Estudos históricos sobre transformações das práticas sonoras e musicais no cinema, do primeiro cinema às tecnologias digitais e streaming, incluindo periodizações, rupturas e continuidades.

 3. Tecnologias sonoras, mediações e materialidades

Análises das técnicas, dispositivos e infraestruturas que moldam a escuta audiovisual: captação, edição, mixagem, reprodução, algoritmos, IA generativa, plataformas, salas de cinema, home theater, fones.

 4. Estéticas e poéticas sonoras no audiovisual contemporâneo

Discussões sobre estratégias sonoras e musicais na ficção, no documentário, no experimental, no ensaio, no cinema expandido e nas práticas híbridas.

 5. Antropoceno, ecologias do som e políticas da escuta

Investigações sobre como filmes e obras audiovisuais articulam crises ambientais, ecologias acústicas, paisagens sonoras, não-humanos, ruídos industriais, poéticas do planeta e do pós-humano.

 6. Som, memória, história e arquivo

Estudos sobre o papel do som audiovisual como documento, vestígio, testemunho, inscrição histórica e operador de memória.

 7. Música fílmica: composição, dramaturgia e fabulação

Abordagens sobre composições originais, dramaturgia musical, poéticas experimentais, música popular no cinema e novas práticas composicionais na era digital.

 8. Escuta, subjetividade e experiência sensória

Debates sobre modos de subjetivação pela escuta fílmica, experiências perceptivas, corporalidade, envolvimento emocional, imersão, atenção.

 9. Cinema, indústria cultural e economia do som

Reflexões sobre dimensões econômicas, laborais e industriais da produção sonora audiovisual: fluxos de trabalho, profissões, políticas de crédito, precarização, automação.

 10. Poéticas sonoras nas mídias digitais, plataformas e redes

Estudos sobre sonoridades em video games, plataformas de vídeo, redes sociais, ambientes de Realidade Expandida.

 

DATAS

1-recebimento de originais: até 17 de agosto de 2026

2- anúncio dos resultados com os pareceres: 30 de setembro de 2026

3- revisão dos textos pela equipe MusiMid: 15 de outubro de 2026

4- devolutiva para os autores com correções: 30 de outubro de 2026

5- publicação: a partir de 23 de novembro de 2026